O Ritual da Palavra nos Contos Infantis

Contar histórias é uma das manifestações mais antigas da humanidade e há várias formas de expressá-las. Os contos de fada são uma variação do conto popular ou da fábula e a sua riqueza simbólica seduz a todos: crianças, adolescentes e adultos. Neles, encontramos personagens, sentimentos, valores e desafios. A sua dimensão mágica, sobrenatural, permite um leque de possibilidades interpretativas. O conto, então, como parte integrante do processo de preservar a religião, a cultura e a história das civilizações através de suas narrativas se tornou fundamental na tradição do contar para eternizar.


Durante muito tempo, contar histórias foi a única fonte de aquisição/transmissão do conhecimento e a solidificação dessa tradição que, a priori, pertencia aos nossos ancestrais, tornou-se uma ponte de saberes entre as gerações antigas e as atuais. As histórias relatadas buscavam difundir nas minúcias de suas palavras os preceitos culturais, mitológicos e religiosos com a finalidade de propagar a moralização social. Nesse diapasão, ativo esse discurso utilizando personagens do mundo encantado na sua composição, fazendo uma alteração na original, devido a minha inclusão interpretativa, conforme as referências dos crimes familiares residentes no interior do observador que se coloca como agente do discurso.


A análise dessas linhas revela que vários discursos são postos em evidência e que, ao “transgredir” a tradição dos contos de fadas, os discursos se consolidam como uma forte manobra persuasiva. Nesse sentido, o discurso é condição fundamental para se refletir sobre a produção de sentidos na língua, pois se torna o instrumento essencial na relação do homem com sua história. Pretendo, portanto, persuadi-lo, querido leitor, a parar e refletir sobre as proposições aqui colocadas. O discurso é o movimento dos sentidos, os lugares provisórios de conjunção e dispersão, de unidade e de diversidade, de ancoragem e de vestígios: esse movimento, pra mim, o chamo de O RITUAL DA PALAVRA. Mesmo o das que não se dizem, como teoriza Orlandi (2007).


Nesse contexto, considero o papel da memória discursiva, que povoa o inconsciente dos indivíduos, nesse caso, com a referência da Chapeuzinho vermelho e o lobo mau, lembrarmo-nos da estória contada no nosso passado que ficaram registrados para sempre. Esse funcionamento discursivo de imagens sob uma perspectiva da memória, denominada intericonicidade por Courtine, que também postulou o conceito de memória discursiva na Análise do Discurso, nos dá embasamento para sobrepormos nossa interpretação, alterando o discurso, numa construção com olhar sistêmico para outro tempo, em outro portal, numa nova dimensão na nossa mente. Segundo Davallon (2007, p. 24), “o registro do ‘acontecimento’ deve constituir memória, quer dizer: abrir a dimensão entre o passado originário e o futuro”.


Esse gênero do discurso destaca-se pela sua forma de seduzir, e, podemos estabelecer uma ponte nessa discussão, citando um embasamento psicanalítico através de Bakhtin (2003), quando assevera que todas as esferas da sociedade elaboram seus tipos relativamente estáveis de enunciados (os gêneros do discurso), que refletem, por sua vez, as condições e as finalidades de cada uma dessas instâncias de utilização da língua. No tocante à “relatividade” e à “estabilidade” apontadas por esse autor, a primeira está voltada para o quadro histórico social da língua, enquanto que a segunda diz respeito à forma e à estrutura dos gêneros.


A maleabilidade na estrutura dos gêneros abre espaço para os “desvios” no seu conjunto formal de regularidades. A quebra de expectativa ou a ruptura (desvio, deslocamento) de algum componente das regularidades inerentes a um determinado gênero discursivo só é permitida pela flexibilidade dos gêneros, por estes serem entidades dinâmicas, passíveis de transformações, que seguem as condições sociais e históricas nas quais são produzidos. Nesse contexto, é preciso considerar que os gêneros, devido à sua plasticidade, encontram-se, ao mesmo tempo, submetidos aos movimentos dinâmicos das sociedades em que circulam e dos sujeitos que os colocam constantemente em transformação.


Considerando que esse instrumento exerce uma forte influência nas decisões do sujeito contemporâneo como um poderoso vetor de produção de sentidos, pois seduz nossos sentidos, mexe com nossos desejos, revolve nossas aspirações, fala com nosso inconsciente, nos propõe novas experiências, novas atitudes, novas ações, busco, neste livro, introduzir as questões criminais em âmbito familiar, especificamente a Alienação Parental que vitimiza os integrantes vulneráveis (crianças, adolescentes, e, por analogia, idosos e portadores de deficiências), me permitindo seguir esse caminho encantador, apropriando-me dessa narrativa infantil: A CHAPEUZINHO VERMELHO, presente na memória discursiva da nossa mente coletiva.


Nesse interim, fundamento essa minha ação com base no conceito de memória discursiva, desenvolvido pelo linguista Courtine (2008), que infere-nos a noção de memória como de grande alcance, “tanto no que concerne às palavras quanto às imagens: seu funcionamento no estado líquido se fundamenta na volatilidade, na efemeridade, na descontinuidade e no esquecimento” (COURTINE, 2008, p. 17), o que evidencia a necessidade da manutenção de um quadro de reflexão histórica, pois, segundo o autor, não há memória sem história.

Para esse autor, um dos aspectos da vida líquida dos discursos é que em vez dos enunciados solidamente acumulados e empilhados na memória, os discursos passam a ter data de validade, são descartáveis, “de onde deriva sua volatilidade, sua deterioração precoce, a aceleração de sua reciclagem, a transformação rápida das fórmulas e dos programas, de ontem, em refugos, de hoje” (COURTINE, 2008, p. 15). Nesse sentido, utilizo-me dessa liquidez do discurso para interpretar o presente conto, incutido na memória discursiva para introduzir o novo, através de uma visão específica e da apresentação de solução para um também novo final.


Será esse o mecanismo de implante das memórias falsas acusadas pela Lei de Alienação Parental???

Finalizo essas primeiras linhas lembrando o leitor que a arte de contar histórias, além de ser uma atividade que contribui (e muito!) para o desenvolvimento e aprimoramento dos processos discursivos do sujeito, é uma experiência prazerosa que possibilita a vivência de um dos mais maravilhosos dons do ser humano: o dom de sonhar.

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"Toda honra e toda a Glória ao Senhor Jesus Cristo"